sábado, 16 de maio de 2009

O Pensamento Judaico-Cristão Sobre o Trabalho

Uma Rápida Viagem Sobre os Conceitos Ligados ao Trabalho no Mundo Ocidental

Introdução - Não um sermão, mas reflexões sobre os conceitos de trabalho que contextualizam a nossa sociedade e a nossa vida pessoal. Somos fruto e gravitamos nas idéias judaico-cristãs que constituem a base da sociedade ocidental.

A civilização oriental possui sua visão própria do trabalho, em dois extremos: elevando-o a razão de ser da própria vida, ou banalizando-o.

Quando a visão é construída a partir da questão da mera sobrevivência, ele perde um sentido todo especial e, principalmente, a atratividade no todo da nossa existência.

1. Mitos Modernos sobre religião e trabalho - No sentido contemporâneo seriam campos que não se misturam. Religião, quando praticada, atenderia as necessidades espirituais das pessoas. Trabalho, atenderia as necessidades materiais. Religião seria um campo opcional. Trabalho, uma tarefa obrigatória, árdua e cansativa - realizada pela necessidade de sobrevivência. Esses mitos partem de construções erradas sobre o que, verdadeiramente, é a religião; sobre o caráter de Deus e suas determinações; e sobre o que é o trabalho.

2. O pensamento Judeu - O Mandato Cultural (No início da história da humanidade Deus indica ao homem o seu comissionamento aqui na terra: Gen. 1.28). José - ocupando posição de mando na corte de Faraó, não descarta a propriedade e dignidade suas funções como executivo de alto escalão. Moisés e o Decálogo - Estabelece o descanso semanal, mas muitos se esquecem do início do Quarto Mandamento: Seis dias trabalharás!Juizes: a questão mais importante para as necessidades materiais era possuir terra e ter paz social, sem inimigos que impedissem o plantio e a colheita, (Juizes 6.3-6). Eclesiastes - futilidade no trabalho fora do contexto religioso; tempo para tudo; situação semelhante à "revolução industrial" - Eclesiastes (Salomão) 5.11, "Onde os bens se multiplicam, também se multiplicam os que dele comem". Daniel - trabalho na corte - recrutamento e seleção de executivos. Promessas na Terra Prometida. A palavra dos profetas expressam intensa preocupação com a dignidade do trabalho e com os direitos dos trabalhadores - Jeremias 22.13 ("13 Ai daquele que edifica a sua casa com iniqüidade, e os seus aposentos com injustiça; que se serve do trabalho do seu próximo sem remunerá-lo, e não lhe dá o salário"); e Malaquias 3.5 ("E chegar-me-ei a vós para juízo; e serei uma testemunha veloz contra os... que defraudam o trabalhador em seu salário, a viúva, e o órfão, e que pervertem o direito do estrangeiro, e não me temem, diz o Senhor dos exércitos") trazem severa condenação para os que não pagam os salários combinados. A falta do salário é equacionada, em Zacarias 8.10, com tempos de provação e de instabilidade institucional quando "cada um está contra o seu próximo" ("Pois antes daqueles dias não havia salário para os homens, nem lhes davam ganho os animais; nem havia paz para o que saia nem para o que entrava, por causa do inimigo"). O Trabalho nunca é "um mal necessário", mas uma atividade dignificante e sagrada.

3. O Pensamento Cristão, no Novo Testamento - Integração. Dá andamento à mensagem recebida dos Judeus. João Batista e as diferentes profissões - (Lucas 3.10-14: Ao que lhe perguntavam as multidões: Que faremos, pois? Respondia-lhes então: Aquele que tem duas túnicas, reparta com o que não tem nenhuma, e aquele que tem alimentos, faça o mesmo. Chegaram também uns coletores de impostos (publicanos) para serem batizados, e perguntaram-lhe: Mestre, que havemos nós de fazer? Respondeu-lhes ele: Não cobreis além daquilo que vos foi prescrito. Interrogaram-no também uns soldados: E nós, que faremos? Disse-lhes: A ninguém queirais extorquir coisa alguma; nem deis denúncia falsa; e contentai-vos com o vosso soldo). Jesus e a ausência de ansiedade - quanto as coisas materiais, mas envolveu-se a maior parte de sua vida com o trabalho de carpintaria. Paulo - praticante do trabalho (fazedor de tendas) e suas diretrizes: 2 Tess. 3.7-12 ("Porque vós mesmos sabeis como deveis imitar-nos, pois que não nos portamos desordenadamente entre vós, nem comemos de graça o pão de ninguém, antes com labor e fadiga trabalhávamos noite e dia para não sermos pesados a nenhum de vós. Não porque não tivéssemos direito, mas para vos dar nós mesmos exemplo, para nos imitardes. Porque, quando ainda estávamos convosco, isto vos mandamos: se alguém não quer trabalhar, também não coma. Porquanto ouvimos que alguns entre vós andam desordenadamente, não trabalhando, antes intrometendo-se na vida alheia; a esses tais, porém, ordenamos e exortamos por nosso Senhor Jesus Cristo que, trabalhando sossegadamente, comam o seu próprio pão"). O texto traz importantes diretrizes sobre a questão do trabalho. Apesar do Apóstolo Paulo estar falando de sua situação específica, e respondendo a algumas críticas levantadas contra a sua pessoa, ele nos diz que o seu modo de proceder foi para "nos oferecer exemplo" (v. 9). Vejamos, portanto, o que ele quer nos ensinar:

i) O propósito principal do trabalho é providenciar a subsistência pessoal e familiar, dentro das responsabilidades individuais, de tal forma que nenhuma pessoa seja pesada a outra (v.8).

ii) A ausência voluntária do trabalho, ou seja, não querer trabalhar, ou não procurar um trabalho, é considerado por Paulo fora da ordem natural das coisas, ou seja, é "andar desordenadamente" (vs. 6 e 11).

iii) A ociosidade gerada pela ausência voluntária de um trabalho leva a outras deficiências. O tempo em abundância faz com que as pessoas se "intrometam na vida alheia" (v. 11).

iv) Se a falta de trabalho for por querer, Paulo nos diz que a pessoa voluntariamente desempregada, deve sofrer as conseqüências de sua própria falta de ação - "se alguém não quer trabalhar, também não coma" (v. 10).

v) A situação ideal, portanto, é que as pessoas "trabalhando tranqüilamente, comam seu próprio pão" (v. 12).

Vemos, assim, que o trabalho é algo que dá dignidade ao homem. É a forma providenciada por Deus para o seu sustento. O trabalho faz com que ninguém seja peso para ninguém, bem como aquele que trabalha não vai precisar da ajuda de outro para sobreviver.

Em outra carta, Paulo, ensina (Efésios 4.28, que diz: "aquele que furtava, não furte mais; antes trabalhe, fazendo com as próprias mãos o que é bom, para que tenha com que acudir ao necessitado"). O desenvolvimento do pensamento de Paulo é: (1) Furtar é errado; (2) procure trabalhar; (3) Com que propósito? Para que tenha com o que ajudar ao necessitado.

Tiago 5.4 condena aqueles que retêm o salário dos trabalhadores, chamando isso de fraude ("Eis que o salário que fraudulentamente retivestes aos trabalhadores que ceifaram os vossos campos clama, e os clamores dos ceifeiros têm chegado aos ouvidos do Senhor dos exércitos.");

4. O Pensamento Católico Romano - Foi se desenvolvendo principalmente do século IV até o XIV. Isso marca o período de agregação da tradição acima dos textos básicos da Fé, de um crescente misticismo e da criação de uma hierarquia interpretativa das verdades da vida aos fiéis. A filosofia católica encontra sua formalização nos escritos de Tomás de Aquino. Nesses escritos, criou-se um fosso entre o secular e o sagrado. Começam os pensadores Cristãos medievais a se divorciar do conceito tradicional judaico-cristão.

O filósofo Francis Schaeffer identifica esta tendência, apontando com incrível precisão, que a partir de Tomás de Aquino as pessoas foram ensinadas a compartamentalizar a vida sagrada, as coisas sagradas, a esfera religiosa e as coisas seculares, mundanas, pertinentes a esta vida. O envolvimento no trabalho, na sobrevivência, na aquisição de bens, passa a ser uma espécie de "mal necessário". O "summum bonum" do homem passa a ser o envolvimento com o sagrado, em todas as suas formas de misticismo.

A conseqüência disso é que sofre tanto o sagrado (que não tem mais que ser relacionado com a realidade nua e crua da vida) e passa a criar raizes místicas próprias, como o secular (que perde o ethos, a propriedade, a legitimidade). As pessoas passam a se envolver com o secular, com intensos sentimentos de culpa por estarem negligenciado o seu chamado maior, suas atividades principais. A religião se envolve em um mundo próprio, rituais, imagens, língua morta - não inteligível, alienação do intelecto.

5. A reforma do século XVI vem quebrar essa barreira - a integração com o intelecto começa com a tradição, para o vernáculo comum, dos escritos sagrados - a Bíblia é traduzida para o Alemão, por Martinho Lutero.

Em Calvino, a ética do trabalho a visão de que a "vocação" (vocare - chamado) envolve todas as atividades da vida, é pregado à população e praticado por esta. Há a conscientização de que não é pecado procurar o avanço pessoal. O envolvimento no trabalho é uma tarefa abençoada. O progresso individual e da sociedade é tarefa tão sagrada quanto o ir aos encontros dominicais. A adoração a Deus se processa não somente em ritos religiosos, mas na penetração das tarefas diárias e no cumprimento dessas no melhor de nossas habilidades e possibilidades, com a conscientização de glorificar a Deus.

O Pensamento Católico Romano Recente : Mesmo considerando Pio XII que, na década de cinqüenta, escreveu que as grandes corporações deveriam ser mais "parcerias" para que nelas os indivíduos se apoiassem mutuamente. O pensamento Católico Romano só veio a resgatar a legitimidade do trabalho e retornar ao ideário de que deve ser exercitado de forma a preservar a dignidade do homem, com o Papa João XXIII, no início da década de sessenta, em sua encíclica Mater et Magister. Nela ele cita que as corporações e associações, devem sempre levar em consideração este aspecto. Não podem despersonalizar o cooperador nem destruir a sua individualidade. "Justiça deve ser observada não apenas na distribuição da riqueza, mas também com relação às condições sob as quais as pessoas se envolvem em uma atividade produtiva para assumir responsabilidades e para um auto aperfeiçoamento compatível com os seus esforços".

No final da década de sessenta, o Papa Paulo VI, em sua encíclica - Populorum Progressio, aproximou-se mais do conceito bíblico do trabalho. Um trecho do documento diz: "No desígnio de Deus, cada homem tem um chamado para se desenvolver e para preencher os seus anseios, pois cada vida é uma vocação. No nascimento, cada um recebe, como semente, um conjunto de aptidões e de qualidades as quais deve fazer frutificar. Esse conjunto atinge a maturidade como um resultado da educação recebida, de seu meio ambiente e por seus próprios esforços, e permite a cada pessoa dirigir-se a si mesmo em direção ao seu destino, conforme as intenções do Criador. As pessoas recebem inteligência e liberdade [como base] e são auxiliadas ou impedidas por aqueles que detêm a tarefa de educá-las ou por aqueles que com ela convivem. No entanto, em última análise, cada pessoa permanece, independentemente dessas influências, responsável e principal agente de seu próprio sucesso ou de sua própria queda. Exercitando os esforços próprios de sua inteligência e determinação, cada pessoa cresce em sua humanidade e pode magnificar o seu valor próprio, tornando cada vez mais uma pessoa [em toda sua essência]".

Num estágio mais contemporâneo , os Católicos seguiram a seguinte polarização perigosa: Ou seguiram um rumo de politização inconseqüente, na qual a dignidade da individualidade é sacrificada pelo suposto bem da coletividade e no qual o envolvimento político é substituto da conscientização religiosa (horizontalização ad absurdum); ou voltaram a enfocar o aspecto místico-carismático da fé, divorciando-se da realidade e gerando uma espiritualização danosa que voltará a alijar o valor intrínseco do trabalho e do progresso pessoal, que volta a ser caracterizado como "ocupação mundana".

6. Recaídas Recentes do Campo Evangélico. Evangélicos contemporâneos, abandonando progressivamente os princípios da Reforma do Século XVI (e a visão judaico-cristã), caíram de volta nos mesmos erros do catolicismo de Tomás de Aquino e têm promovido uma dissociação do secular e do sagrado. Ênfase única na vida após vida. Salvação = alienação do presente. Por outro lado, o ramo mais populista, que anseia por reconhecimento evangélico, prega uma visão materialista da religião (contradição) na qual os anseios meramente financeiros e de bem estar social se equacionam com o "estar de bem com Deus".

Conclusão - Essas questões parecem meras considerações filosóficas, mas de nossa visualização do trabalho depende o nosso bem estar e a nossa abordagem sobre muitas questões importantes em nossa vida. Não devemos perder de vista o caráter sagrado do trabalho. O seu enraizamento com as atividades e as prescrições de vida emanadas do Criador. Nossa vida é integralmente uma vida emanada de Deus e deve ser vivida, em todas as suas facetas, direcionadas a Ele, com toda honestidade e propriedade. Só assim encontramos tranqüilidade e sentido em nossa existência. Na maioria das vezes passamos a vida envolvidos com o trabalho sem refletirmos o porque ou propósito disso. Nos sentimos prisioneiros de um círculo vicioso, onde:

· Trabalhamos para sobreviver, e as necessidades do termo vago "sobrevivência" parecem crescer em uma espiral ascendente sem término.

· Trabalhamos para manter as aparências junto aos nossos subordinados e superiores, sem um conceito maior de chamado.

· Trabalhamos para preencher o tempo, sempre com vistas à próxima folga, férias ou final de semana, colocando ali os nossos anseios e razão de existir - ou seja, trabalhamos de mal grado, engolindo o mal necessário.

É de grande conforto, quando consideramos o trabalho uma missão recebida do Criador, termos a satisfação de estarmos envolvidos nesse domínio do universo, com nossa pequena parcela de contribuição, concentrados nos ideais maiores de nossa vida.

ESBOÇO de PALESTRA DADA na Gutemberg Consultores SC/Ltda, em 14.03.2002

Fonte: http://www.solanoportela.net/palestras/trabalho.htm

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